terça-feira, 13 de maio de 2014

Meu Umbigo - por Caroline Falero

SUJEIRA DE UMBIGO – De pesquisador a objeto de pesquisa

Nossa pesquisa para o espetáculo UMBIGO, começou no final de 2012. EU mostrei interesse em assumir a posição de diretora, principalmente porque definimos que o próximo trabalho seria para a rua. Esta linguagem ME fez querer muitas pessoas em cena, trabalhando a boa e velha comédia que é marca registrada do Grupo Trilho de Teatro Popular e uma das características mais marcantes na MINHA atuação. A posição de diretor nos dá a possibilidade de propor um tema ao grupo. Na MINHA cabeça estava muito presente a corrupção, mas não era bem sobre isso que EU queria falar, não era esse o tema. Corrupção era a consequência. 

Comecei a pensar no que leva as pessoas a cometer – primeiramente - grandes atos egoístas, como usar para si o dinheiro de fiéis, como roubar dinheiro público, como matar famílias em um acidente de trânsito por estar alcoolizado ao volante, por exemplo. Pensava nessas situações, mais abrangentes, e as tentava contextualizar para entender como aconteciam e por que aconteciam. Sobre os pequenos atos egoístas, há tantos na rua que ME irritam profundamente, me pego bufando e observando na Voluntários da Pátria as diversas figuras, o ritmo individual, “cada um no seu cada qual”, nos seus celulares, nos seus carros... eu também estou no meu celular, eu atrapalho um pouco mais o fluxo quando paro para refletir sobre tudo isso na rua lotada de gente. Nas conversas em grande grupo, chegamos ao EGOÍSMO como o objeto de pesquisa e ao universo dos editais de financiamento para conseguirmos alguma verba para montagem. EU ia experimentando escrever sobre esse novo trabalho e pensava: tô tirando do meu umbigo toda essa “filosofia” inicial.



Em novembro de 2012, começamos a nos encontrar para conversas, sessões de filmes, músicas, textos teóricos e teatrais. Em 2013, o trabalho prático foi intenso. Os atores elaboraram inicialmente cenas sobre egoísmo e os músicos composições sobre o tema. Eu parti da improvisação de situações egoístas, pois tínhamos muitas cenas que vinham de imagens, temas, lugares, objetos, além de cenas e músicas escritas por Fábio Castilhos. A visão inicial do espetáculo era como um panorama de diversas situações egoístas, sem protagonistas e sem uma cronologia definida. Trabalhávamos com a ideia da história de uma cidade, mas nada tinha foco e era difícil amarrar todo o material numa lógica dramatúrgica. Foi quando definimos os quatro personagens principais (Ricky da Silva, José Arésio, Mary Maravilha e Joana de Calcutá) e suas trajetórias que conseguimos evoluir na montagem.

A direção foi um grande desafio, queria estar mais como organizadora do material, experimentado em sala de trabalho, do que elaborar uma ideia partindo da minha visão, afinal falávamos sobre egoísmo, então não queria que nada partisse de mim e sim do grupo. Ao mesmo tempo, a responsabilidade de fomentar a criação desse material cênico era minha e me sentia extremamente insegura em relação às escolhas que fazia. Foi doloroso. É contraditório, pois quando estou atuando me sinto à vontade para pensar em elementos da direção e quando estou dirigindo minha visão de atriz é o que prevalece na forma de dirigir. Dos conflitos me lembro da parceira de grupo e amiga Melissa Dornelles dizendo: acho muito bonito essa tua ideologia de todo mundo pegar junto, mais cai na real, se tu não tomar a rédea esse trabalho não vai acontecer. Foi duro ouvir isso, mas foi importante entender que o egoísmo nunca estaria distanciado, nossas atitudes egoístas ao agir seriam mais um desafio ao longo de tudo e alguém tinha que manter a “casa em ordem”.

O maravilhoso disso tudo – há quem possa achar masoquista – é que foi um ano e meio de pesquisa para essa comédia construída do conflito e da dúvida. A única certeza é que se tratava de uma pesquisa sobre o egoísmo. O egoísmo reinava em tudo e em todos e fico orgulhosa de ver um resultado que tão bem representa esse longo processo - de pesquisadores passamos a objeto de pesquisa. O trabalho traz à cena, através de uma parábola irônica e bem humorada, nosso conflito egocêntrico durante a montagem e situações e personagens egoístas em uma cidade fictícia onde todos pensam no próprio umbigo.
Ainda bem que é faz de conta, né?  


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